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Pós-venda

Garantia de lente: como organizar o prazo e evitar prejuízo

6 min de leitura

"Está na garantia?" é a pergunta que mais chega no balcão e a que mais depende de quem está atendendo. Não porque falte regra, mas porque existem três regras diferentes com o mesmo nome, e ninguém escreveu qual vale para quê.

As três garantias

1. Adaptação. É o prazo curto em que a lente é refeita sem custo porque o cliente não se adaptou, típico de primeira multifocal. Não é defeito: é o produto certo que não serviu àquela pessoa. O prazo é definido pela loja (e alguns laboratórios cobrem uma refação nessa janela).

2. Garantia da armação. Contra defeito de fabricação, contada em meses, definida pelo fornecedor. Não cobre queda, sentar em cima nem criança torcendo a haste.

3. Garantia do tratamento. Antirreflexo que descasca, fotossensível que para de escurecer. Segue o prazo do fabricante da lente e costuma ser mais longa que a de adaptação.

Garantia Quem define o prazo Cobre Não cobre
Adaptação A loja, às vezes com apoio do laboratório Refazer a lente porque o cliente não se adaptou Receita nova, mudança de ideia, segunda refação do mesmo par
Armação O fornecedor Defeito de fabricação: solda, dobradiça, pintura Queda, torção, sentar em cima
Tratamento O fabricante da lente Antirreflexo descascando, fotossensível que parou de escurecer Risco de limpeza a seco e produto químico

Misturar as três produz os dois erros caros: refazer de graça o que não estava coberto, e negar o que estava, o que custa mais, porque custa o cliente.

Escreva na ordem de serviço

A hora de definir a garantia é na venda, não no dia da reclamação. Os três prazos escritos na O.S. e no comprovante que o cliente leva resolvem a discussão antes de ela existir. Quando não está escrito, quem decide é quem está no balcão, e a decisão muda conforme o humor do dia e o tamanho da fila. Que prazo de adaptação escolher, e de que data ele conta, está no texto sobre o prazo da garantia de adaptação da lente.

Uma refação por óculos, e registrada

A regra que sustenta a adaptação é o uso único: aquele par de óculos tem direito a uma refação. Sem esse controle, o mesmo óculos volta três vezes e a margem daquela venda vira zero.

Registrar também responde a pergunta que muda a compra: quantas refações eu tive no mês, e de qual laboratório? Refação concentrada em um fornecedor não é azar: é qualidade, e é negociação.

Vale anotar junto quem arcou com o custo: a loja, o laboratório, o fornecedor ou o cliente. Não é para cobrar na hora; é para ter o número quando chegar a conversa de preço com o laboratório. Quem costuma arcar em cada caso, e o que registrar, está no texto sobre quem paga a refação de lente.

Adaptação não é sinônimo de erro

Vale treinar isso com a equipe, porque muda a conversa com o cliente. Multifocal exige adaptação e uma parte das pessoas leva semanas. Antes de refazer, confira o básico: a altura de montagem, a DNP de cada olho e se a armação está ajustada no rosto. Uma boa parte do que chega como "a lente está errada" é armação escorregando, e se resolve em cinco minutos na bancada, sem lente nova.

Quando for erro de verdade, refaça sem discutir. O prejuízo de uma lente é menor que o de um cliente contando a história.

O que não é garantia, e é melhor dizer na venda

Metade das discussões de balcão desaparece se trinta segundos forem gastos na entrega, e não dez minutos na reclamação. O que não é defeito:

  • Risco de limpeza. Lente limpa a seco, com a barra da camisa ou papel, arranha. E é de longe a causa número um de lente riscada. Água corrente e sabão neutro resolvem, e a flanela na caixa é mais barata que uma refação.
  • Queda, torção e peso. Armação que caiu, que foi torcida para "ficar mais justa" ou que passou a noite embaixo do travesseiro.
  • Grau que mudou. Receita nova é venda nova, mesmo que o óculos tenha três meses. Vale dizer isso com clareza no ato, porque é a confusão mais comum: o cliente entende "garantia" como "um ano de óculos certo", e a vista dele pode mudar antes disso.
  • Arrependimento estético. A armação que ficou ótima na loja e estranha em casa é assunto de política de troca, não de garantia. Ter essa política escrita ajuda; chamá-la de garantia atrapalha as duas.

Como receber a reclamação sem decidir errado

A decisão errada quase sempre vem de decidir cedo demais. Uma sequência de cinco minutos evita a maior parte delas:

  • Ouvir o sintoma nas palavras do cliente: "dói a cabeça", "embaça de perto", "só enxergo bem virando a cabeça". Cada um aponta para uma causa diferente, e o terceiro raramente é lente errada.
  • Ver o óculos no rosto dele: alinhamento, altura, se escorregou. Armação escorregando muda a altura efetiva da lente, e é o que mais chega como "a lente está errada".
  • Medir no lensômetro e comparar com a O.S., campo por campo.
  • Comparar a O.S. com a receita, e olhar a data dela.
  • Só então decidir entre as quatro saídas possíveis: ajuste na bancada, refação por adaptação, refação por erro de produção ou receita nova.

Registrar qual das quatro foi, e por quê, é o que transforma reclamação em informação. Sem esse campo, todas viram "refação" na mesma pilha, e a loja perde a única chance de descobrir que elas se concentram num laboratório, num tipo de lente ou num vendedor que não está medindo altura direito. Se o sistema da loja não tem onde registrar isso, leve a pergunta para a demonstração quando for decidir qual o melhor sistema para ótica.

O óculos que volta pela terceira vez

A regra do uso único resolve o caso comum e não resolve este: o par que já foi refeito, foi ajustado, e o cliente continua sem se adaptar. Recusar pelo regulamento é tecnicamente correto e costuma custar mais caro do que a lente.

Antes de decidir, vale olhar para o lugar certo. Cliente que não se adapta a duas montagens diferentes, com medidas conferidas nas duas, quase nunca tem um problema de lente: tem um problema de receita, e o caminho é voltar ao médico. Dizer isso é mais útil para ele do que uma terceira lente, e é o que faz a loja parecer competente em vez de resistente.

Quando a conversa mesmo assim precisa de uma saída comercial, um desconto na receita nova costuma resolver melhor que a refação gratuita: atende o cliente, não gasta uma lente que provavelmente também não vai servir, e deixa registrado o que foi concedido e por quê.

O papel que o cliente leva embora

Garantia que só existe no combinado verbal é garantia que depende de memória: a do cliente e a de quem atendeu, que raramente coincidem. O que sai da loja com ele deveria trazer três coisas: os prazos das três garantias, o que cada uma cobre, e como acionar (voltar à loja com o óculos).

Vale registrar na ficha que o documento foi entregue. Parece burocracia até o dia em que a discussão é sobre o que foi combinado. E aí é a diferença entre uma conversa de dois minutos e uma reclamação pública.

O prazo mais esquecido: a próxima receita

Fora da garantia, existe um prazo que quase nenhuma ótica acompanha: quando aquele grau provavelmente vai mudar. Cerca de um ano depois é uma janela razoável para uma mensagem simples: "faz um ano do seu último óculos, que tal conferir o grau?".

Não é venda agressiva: é o cliente lembrando de uma consulta que ele mesmo já esqueceu. E é a diferença entre esperar que ele volte e ter um motivo para chamá-lo.

Isso só existe se o histórico estiver registrado, o que nos leva de volta ao motivo pelo qual o caderno para de dar conta. Registrado, a mensagem do "faz um ano" não depende de ninguém lembrar: ela é um dos avisos automáticos por WhatsApp.

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